Maio 21, 2009

Não ter as letras nas mãos, me faz seco, cego.
Não ter andamento nas linhas mal escritas e tortas, me faz sem rumo, sem norte.
Que necessidade é esta que não se sacia em um momento definido.
Onde fica o paraíso, para esta angustia?
Letras mudas que não se completam em frases surdas.
O que me faz pensar que basta fechar os olhos para que estas surjam uma a uma neste céu branco, como pára-quedistas rasgando o firmamento em cores vibrantes.
Que loucura é esta que me persegue, que me faz achar que rimas cicatrizariam feridas profundas, feridas criadas pela falta de tinta em minhas veias.
E este suor, áspero e gelado, que insiste em encharcar meu espírito,
Meu espírito que se revolta contra a mesmice e a pequinês dos atos contínuos e premeditados, que embrulha meu estomago e me corta ao meio o suspiro.
Letras, palavras e frases que insistem em me fazer caminhar pelo escuro da sua falta, caminhar sem a transparência do meu fino sorriso.
O mesmo sorriso que falsamente dou a piada repetida e que forçadamente foi contada em roda de amigos velhos que às vezes não enxergam que já não há mais nada a ser dito, e insistem em não crer no silêncio como a fuga esperada.
Sou isto e quase nada, sem as letras amarradas a mim, com fios de esperança feitos de nuvens brancas e areia fina.
Sou isto e quase nada, sem a rima fantasiada, sem frase bem acabada, tatuadas em minha pele, com a tinta amarela dos girassóis.
Sou isto e quase nada sem a poesia amaldiçoada, sem a crônica escarrada, sem o romance esquecido, sem o conto, onde conto coisas da vida.
Sou isto, e quase nada sou, sem o êxtase do fim…

HoMEN:.

Janeiro 19, 2009

Hoje pela manhã recebi por email, um vídeo, que começava com um símbolo, que era um fuzil, um dedo indicador apontado para cima como o fuzil e uma bandeira hasteada em uma lança, todos acima de um livro aberto, que na verdade é o Corão, e a frente do globo, com letras árabes ao fundo, com um hino cantado por varias vozes masculinas, mas vozes não eram de tom grave.

O hino continua e o vídeo passa a mostrar fotos de um rapaz ao lado de soldados americanos posando entre os tanques de guerra, as fotos somem e o mesmo rapaz aparece de joelhos vestido com uma roupa laranja, mãos amarradas para trás e olhos vendados. Atrás deste rapaz cinco homens de pé, rígidos, estáticos, três deles seguram fuzis kalashnikovs, “herdados” da antiga União Soviética), outro de braços cruzados com uma enorme faca embainhada em seu colete e presa junto ao seu peito, e o último homem lê uma carta, que é longa, mas ele a lê rápido, como não há legendas, não entendo o que ele diz, mas imagino que ele diga coisas sobre o ocidente e seus supostos “demônios”, mal sabe ele que o maior demônio que enfrentamos há milênios, é a nossa própria ganância, e ai não importa de que lado do mundo você está, ganância é ganância e ponto, só nos falta admitir que é ela que nos destrói. Subitamente na última frase, como se aquela frase final soasse um alarme, o homem de braços cruzados saca a faca e parte para o pescoço do rapaz de joelhos, e o degola, na frente dos meus olhos mareados, incrédulos e eu tive a minha respiração cortada ao meio e assim fiquei até escrever nestas linhas.

Já ouvimos falar de civis de várias nações seqüestrados ou mortos no Iraque, mas hoje eu vi um vídeo completo com a morte de um rapaz, e eu, que nem assisto filme de terror por não gostar de ter sensações desagradáveis, sustos, medos e etc… Senti uma das sensações mais desagradáveis da minha vida.

E esta sensação não foi ver a morte daquele rapaz somente e sim de ter sentido e provado que eu, você e qualquer outro somos iguais, então esta sensação de ser igual que me entristece, ser igual àqueles homens de pé que executaram aquele jovem, mas também igual ao rapaz de joelhos preste a ser degolado, somos da mesma raça, eu me senti mal por ser humano, homem, racional.

Precisei ver a morte de um homem que eu nunca vi, que nunca tive qualquer tipo de contato para me sentir infeliz por ser homem, por ser igual a aqueles que o mataram e que vivem eternamente em guerra e que embora sendo iguais a eles, eu não entendo o que os move, eu não entendo Allah e nem o Corão, assim como não entendo, mas que também sou igual, o rapaz americano, que se não me engano era jornalista ou soldado enfim não importa, não entendo o porque desta guerra e o que faz esta e outras guerras virarem noticias em todo o mundo, como se fosse algo cotidiano, como a previsão do tempo por exemplo, e como somos ávidos por estas notícias.

Não entendo os americanos e seus líderes, que saem de sua terra e como se estivesse em seu DNA, e lutam longe de casa. Não entendo a ditadura Iraquiana e o massacre aos Curdos, não entendo o porquê da luta dos Israelenses e suas necessidades, não entendo a faixa de Gaza, nem o Talibã, a Al Kaeda e o Pentágono, não entendo a ONU nem a Kashimira, não entendo a Rússia e nem a Colômbia, não entendo as Etnias Africanas, não entendo a OLP e nem o Comando Vermelho e o PCC.

Entendo que sou igual a cada um destes homens que saem de suas casas e lutam e matam, e às vezes dizem que mataram para proteger suas próprias casas, seus ideais, suas fronteiras e terras, suas religiões e seus negócios.

Agora eu acredito que nós lutamos todas estas guerras, declaradas ou não, por que nós nos classificamos diferentes.

Hoje somos ricos e pobres, brancos e pretos, orientais e ocidentais, palestinos, judeus, católicos, protestantes, budistas, evangélicos, ateus ou cépticos, nós lutamos porque nós esquecemos que somos iguais. Mas pensando bem acho que nós não esquecemos isto agora ou recentemente, pois desde que o mundo é mundo, vivemos em guerra e somos classificados, então chego à seguinte conclusão.

Nunca sequer imaginamos que poderíamos ser iguais, na verdade nunca pensamos nisto. E para remediar esta nossa falha, inventamos uma palavra.

UTOPIA.

Ufa!!!

Estamos salvos…

Momentos significativos e distância.
Vejam bem estas palavras…
Eu acho que é assim que este ano se completa, que assim passamos por cada mês, por cada semana e por cada dia.
Momentos significativos e distância…
Mesmo tendo uma série de momentos significativos que talvez não consigamos se quer entender, como e porque, estes momentos acontecem, ainda assim sem entendê-los tivemos de suportar a distância.
E às vezes a distância se fez presente em nós mesmos, por que é a distância da transformação, distância daquilo que nos faz ser outro para que o mesmo siga a diante.
E isso faz também que nós tenhamos uma série incontável de momentos significativos.
Como se fosse um ciclo. Um após o outro e o outro após um.
Eu estive distante, e mesmo perto, eu sei que estive distante.
Distante da minha essência, porque às vezes isto se faz necessário.
Eu estive distante até mesmo destas linhas, e estou agora, querendo estar, e assim não me envolver e não tornar estas linhas pedaços de mim mesmo. Seria isto possível?
Imaginemos este fim ano como um quarto branco, com uma única cama de lençóis brancos e que ao deitarmos em um silêncio profundo e mesmo com os olhos fechados tudo ainda será branco. Então deitados e de olhos fechados, ouvíssemos uma voz, e esta nos ditasse todos os momentos significativos que tivemos, como se contasse um conto de cada vez, e nos mostrasse que a cada momento significativo que provamos mais distante estamos de algo.
É possível entender que à distância nem sempre esta no tamanho da estrada, que ela não precisa de dois pontos distintos para se mostrar, para se mensurar.
E que o momento significativo, não necessariamente é um momento glorioso, mas de certo é grandioso.
Às vezes não temos o controle, e isso, bom eu acho que isso nos salva.
Vamos sorrir…
Coube em nós este ano, tantos momentos significativos, que covardia e pompa seria descrevê-los, assim como nos traria uma profunda agonia perceber aqui, à distância que se instaurou em nós.
Façamos assim, vamos simplesmente tê-los e ter a consciência que nem sempre saberemos lidar com cada uma destas coisas.
Mas temos de saber lidar com o amigo que aos poucos vai percorrer outras estradas e já não se faz tão presente;
Precisamos entender que às vezes não sabemos como agir, com o que fazer da nossa vida, e que os outros são iguais;
Temos que ser capaz de compreender o abraço;
O sorriso do mais novo;
E a lágrima de quem quer que seja;
Compreender a dor do abandono;
Compreender o amor que simplesmente se foi, ou porque infelizmente não aconteceu;
O amor único, o amor dividido, o amor intenso, o amor que teima em não se completar e o amor completo.
Compreender que às vezes basta olhar para o lado e suspirar;
Que os amigos vão mudar;
Por que temos de compreender a liberdade;
Assim como temos de compreender a indecisão, o vacilo e o erro;
Compreender quando se percebe que em um pequeno momento o som vai sumir e você verá todos os sorrisos que você quer ver e ainda assim um pequeno vazio vai estar no fundo do seu peito.
Eu olhei para trás e tive de baixar os olhos, como um se olhasse um livro que eu não li, mas que desconfio de como termina a história, e para isso eu precisei me distanciar do passado. E tive de compreender isto também.
E isso nos acontecerá mil vezes, é o momento significativo aliado à distância.
Então eu devo agradecer a cada momento significativo que pude provar, mas também agradecerei a distância, que nos faz mudar…
Obrigado.

OrAtóRIos nas PAreDeS:.

Dezembro 6, 2008

Mesmo que eu,
Mesmo que ele.
Com o ouro nas mãos,
Mesmo que Eles, e suas bossas, me viessem com novas,
Cantarolando em meus ouvidos.
Coisa do outro mundo…
Mesmo que a água faltasse,
E a minha boca deixasse seca,
Mesmo que o mar secasse,
Deixando tristes os meus versos,
E o sol avermellhasse, mais do que hoje,
Fazendo cegos, os meus olhos.
Ainda assim meus olhos veriam coisa mais bela.
Mesmo que aquela estrela rabiscada por mãos firmes, não tenha lugar na boemia,
Na noite escura,
Eu teria em minhas mãos…
As mesmas que derretem o gelo do ouro.
Eu teria a certeza,
Que assim seriamos capazes,
De perceber, que resta apenas,
Um brinde na noite escura,
Um momento, suprimido,
No titilar dos copos,
Um suspiro, que faz sonhos,
Como aqueles com a vista da Lagoa na noite abafada,
Mas no emaranhar das vozes,
“Água de beber… Água de beber… Camará…”
Eu nunca fiz coisa tão certa.

QUEM MORRE? (Pablo Neruda)

Novembro 13, 2008

 

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou quem não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere os pontos sobre os “is” em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca uma vez na vida fugir de conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.

Morre lentamente quem abandona um projeto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que não sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige esforço muito maior que o simples fato de respirar.

Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade.

 Pablo Neruda.

 (Um belo presente de Raquel Doria)

 

MuNDos…

Agosto 28, 2008

 

Já conheci muitos mundos, nesta minha vida.

Estive em tantos mundos, que ao lembrar, às vezes confundo um com os outros, pedaços de um no lugar dos outros, história de um na história de outros.

Entrei porta adentro e vi, que há mundos são quase iguais.

Lá estava eu, perambulando entre estes mundos como se fosse a perfeição. Pois de certo sempre soube que a perfeição estava no fato de eu não ter construído mundo algum.

Ao entrar nestes mundos eu trazia o bem, mas deixava também um mal.

Quando percebia que este mundo não era o meu, o mundo alheio se transformava então em uma prisão.

E sem saber o que fazer naquele mundo desconhecido,

Cantarolando uma musica triste, ia até uma janela, olhava para o céu, e me perguntava.

O que eu estou fazendo aqui?

No fim, uma mochila nas costas era a companhia,

Para trás ficava um desastre.

Um abandono, uma perda, uma dor.

Uma fuga desesperada por simplesmente não saber o que eu e aquele mundo estávamos fazendo, eu com ele, ele comigo.

Os mundos cresciam e eu encolhia,

E encolhendo cada vez mais em mim mesmo,

Percebo que meu mundo não construído cabe entre estas linhas, dentro de uma mochila,

Nos versos de uma triste canção, canção que cantarolo enquanto caminho…

 

Julho 22, 2008

 

Por agora aqui estou eu,

De punhos fechados,

De olhos cerrados,

Cabeça na lua,

Rosto no chão.

 

Por agora e eu não sei até quando, aqui estou eu.

Fazendo dos meus passos, pequenos movimentos,

Que não te levarão a lugar algum.

 

Por agora, suspiros cortados ao meio.

Pois sou eu que trago o escuro,

E nele sei que enxergo melhor.

Por agora, vou ficando.

Por agora, vou cansando,

Vou dando voltas em mim mesmo,

Até que eu possa saber meu sobrenome.

 

Pois meu nome todos sabem,

E até nos maiores devaneios, eu já estive presente.

Não tenho fórmula,

Métrica ou parâmetros.

Não tenho tempo ou precisão.

Muito prazer, eu sou de casa, e já lhe estendo a mão.

Muito prazer… Solidão…

 

Junho 25, 2008

Ontem à noite, fez sol.
Do escuro à claridade,
Do som o silêncio,
Do chão o vácuo.
Ontem o Sol veio à meia-noite,
Tomou o espaço da Lua, com a reverência de um suspiro.

 

Chora o Rio de Janeiro,
Chora a Mangueira,
Chora o Samba,
Choro Eu… choro de desencanto… de saudade antecipada… de esperar o carnaval…
Choro, pois vejo que a árvore do samba está com um dos seus galhos vazio,
Não há mais nenhum Jamelão, lá…
O fim do outono o levou…
Fizeram as vozes se calar, e um único surdo irá bater,
E dele um som sairá, um som tão triste, como o som do vento no fim do outono, balançando o galho seco, da árvore seca, da Mangueira triste…

Presente Preso…

Junho 9, 2008

Ele abriu os olhos, umedeceu os lábios e respirou…
Precisou se concentrar para ouvir as lentas batidas do seu coração.
Então decidiu não se levantar.
Mesmo com a grama gelada lhe arrepiando a pele,
Mesmo com a brisa mexendo em seus cabelos,
Mesmo com o céu claro daquele final de dia com raras nuvens, lhe cegando,
No meio daquele imenso campo verde,
Decidiu manter-se deitado.
Mesmo que as bolinhas brancas continuassem a voar de um lado para o outro,
Mesmo tendo que recolhê-las,
Mesmo tendo que contá-las,
Mesmo tendo que guardá-las,
E logo depois esperar o ônibus cheio e demorado,
E mesmo sabendo exatamente à distância da sua rua, até chegar em sua casa,
E sentir o cheiro da refeição habitual.
Preferiu se manter no chão,
Com a respiração branda e cadenciada, cortada por suspiros profundos,  que ora acha que não haverá fim,
Com um meio sorriso no canto dos lábios.
Ali ele permanecerá.
Até que o céu se apague por inteiro e as estrelas pipoquem na noite escura, então sonha que cada uma das estrelas ao surgir possa explodir como fogos de artifício multicoloridos.
Pensou que ao ficar ali deitado, não descobrirá a solução definitiva, mas de certo, é um bom momento.
Um bom momento para simplesmente ficar invisível, alheio ao mundo e suas constantes.
Ali com o som da brisa misturado ao som dos seus suspiros, ele vai ver o mundo mudar. Mesmo sabendo que o seu mundo, aquele que o cerca por todos os lados, que o acompanha, que o define, que o sufoca, não seja se quer arranhado, mesmo assim, ele vai ver o mundo mudar.
O dia vai virar noite, a brisa talvez vento forte, o sol deixará a lua brilhar, as bolas brancas vão cessar, o ônibus vai passar, o sorriso vai abrandar, os olhos vão se fechar e os suspiros,
Bom, os suspiros são teimosos…