Ontem à noite, fez sol.
Do escuro à claridade,
Do som o silêncio,
Do chão o vácuo.
Ontem o Sol veio à meia-noite,
Tomou o espaço da Lua, com a reverência de um suspiro.
A FRuTa nãO eStá mAIs No pé:.
Junho 14, 2008
Chora o Rio de Janeiro,
Chora a Mangueira,
Chora o Samba,
Choro Eu… choro de desencanto… de saudade antecipada… de esperar o carnaval…
Choro, pois vejo que a árvore do samba está com um dos seus galhos vazio,
Não há mais nenhum Jamelão, lá…
O fim do outono o levou…
Fizeram as vozes se calar, e um único surdo irá bater,
E dele um som sairá, um som tão triste, como o som do vento no fim do outono, balançando o galho seco, da árvore seca, da Mangueira triste…
PrESenTE PrEso:.
Junho 9, 2008
Ele abriu os olhos, umedeceu os lábios e respirou…
Precisou se concentrar para ouvir as lentas batidas do seu coração.
Então decidiu não se levantar.
Mesmo com a grama gelada lhe arrepiando a pele,
Mesmo com a brisa mexendo em seus cabelos,
Mesmo com o céu claro daquele final de dia com raras nuvens, lhe cegando,
No meio daquele imenso campo verde,
Decidiu manter-se deitado.
Mesmo que as bolinhas brancas continuassem a voar de um lado para o outro,
Mesmo tendo que recolhê-las,
Mesmo tendo que contá-las,
Mesmo tendo que guardá-las,
E logo depois esperar o ônibus cheio e demorado,
E mesmo sabendo exatamente à distância da sua rua, até chegar em sua casa,
E sentir o cheiro da refeição habitual.
Preferiu se manter no chão,
Com a respiração branda e cadenciada, cortada por suspiros profundos, que ora acha que não haverá fim,
Com um meio sorriso no canto dos lábios.
Ali ele permanecerá.
Até que o céu se apague por inteiro e as estrelas pipoquem na noite escura, então sonha que cada uma das estrelas ao surgir possa explodir como fogos de artifício multicoloridos.
Pensou que ao ficar ali deitado, não descobrirá a solução definitiva, mas de certo, é um bom momento.
Um bom momento para simplesmente ficar invisível, alheio ao mundo e suas constantes.
Ali com o som da brisa misturado ao som dos seus suspiros, ele vai ver o mundo mudar. Mesmo sabendo que o seu mundo, aquele que o cerca por todos os lados, que o acompanha, que o define, que o sufoca, não seja se quer arranhado, mesmo assim, ele vai ver o mundo mudar.
O dia vai virar noite, a brisa talvez vento forte, o sol deixará a lua brilhar, as bolas brancas vão cessar, o ônibus vai passar, o sorriso vai abrandar, os olhos vão se fechar e os suspiros,
Bom, os suspiros são teimosos…
Igual – Desigual
Junho 6, 2008
Eu desconfiava:
todas as histórias em quadrinho são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais.
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são iguais.
Todos os partidos políticos são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda são iguais.
Todas as experiências de sexo são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais
e todos, todos
os poemas em versos livres são enfadonhamente iguais.
Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou coisa.
Não é igual a nada.
Todo ser humano é um estranho
ímpar.
Carlos Drummond Andrade