MORtaDelA…
Setembro 18, 2009
Quantas janelas há em um ônibus? Quantas de um lado e quantas do outro?
Quantas delas estariam abertas em uma noite de quase calor no Rio de Janeiro?
Eu estava sentado junto a uma destas janelas abertas, em um ônibus ontem à noite, lendo um livro. Entediado, cansado, pensativo, mas não surpreso por estar quase uma hora junto daquela janela, e a única coisa que me importava naquela janela, era o vento que vinha dela. Eu gosto de vento, eu gosto de fim de tarde com chuva, eu gosto da cor do céu na primavera e do quase frio no outono.
Mas não gostei quando fui atingido no peito por um pedaço de mortadela, é verdade, no meio do meu peito uma fatia grande, redonda e gordurosa, com uma mordida como marca.
Aquele cheiro característico veio depois do susto, e logo após o asco. Mais rápido do que a comoção geral das pessoas a minha volta eu a peguei com a ponta dos dedos e a devolvi pela janela.
O riso amarelo, misturado a frase, “mortadela no peito, que patético” era a cena ideal daquele início de noite, fim de um dia, cansativo, arrastado, preso, abafado e agoniado.
Eu nunca havia imaginado que ser atingido por um pedaço de comida, no meio da rua, entre estranhos, tinha um poder tão grande.
Impressionante, como a partir daquele momento eu me peguei repensando em todas as minhas atitudes para com a minha vida.
E a pergunta que eu fazia a mim mesmo, ecoava. Por que eu?
Eu não tive raiva, não xinguei, nem me envergonhei.
Sofri em um silêncio digno o impacto da vida me dando com uma mortadela no peito. Esperando que haja no mundo alguma civilização que creia que bons tempos sejam recebidos após ter um pedaço de mortadela atirado no peito de cada um.
Mas não posso negar, que um segundo depois que a vida voltou ao normal, eu já imaginava escrever sobre a mortadela no meu peito.
Triste a sina de quem escreve.
SobRE a AGOnia:.
Setembro 14, 2009

Perguntaram-me sobre a agonia.
Para mim a agonia é nó no peito, não é nó na garganta, nó na garganta a gente desata com grito, com briga e desabafo. Nó no peito não se desata, nem se enterrando embaixo dos cobertores, nem se esquecendo de por meias da mesma cor, não se desata com brinde, nem com caminhada na rua, que mesmo cheia de gente, automóveis e movimentos, lhe parecerá vazia.
Agonia para o tempo, corta a respiração ao meio, tira o gosto da boca e encanta os olhos, e os olhos encantados ou se perdem no horizonte ou só olham para dentro.
Agonia amansa os sentidos, pende o pescoço para baixo e um pouco para o lado, a agonia é sozinha, é independente, não necessita de outro sentimento para que ela prevaleça. Dá frio nas mãos e suor na testa. Seca a saliva e agita os pés. È a mistura entre o lento e o acelerado, e o compasso desordenado do coração, é a turves da visão.
Agonia, é espaço indefinido, é momento inacabado, é sonho descumprido e tem som abafado, é pedido que não se pede e nem é aceito, é solidão que não cede, já disse, é nó no peito.
Mas agonia se cura.
Agonia se cura com gargalhada de criança, com braço de amigo por cima do ombro, com mão de mãe no seu rosto, com olhar de cachorro querendo lhe entender. Agonia cura com banho de mar revolto, com vento de ventania no cabelo e com sorriso próprio. Pois a agonia não suporta que o agoniado sorria para ela.
O VelHo e O MOçO:. ( Los Hermanos )
Setembro 9, 2009
Deixo tudo assim
Não me importo em ver a idade em mim
Ouço o que convém
Eu gosto é do gasto
Sei do incômodo e ela tem razão
Quando vem dizer, que eu preciso sim
De todo o cuidado
E se eu fosse o primeiro a voltar
Pra mudar o que eu fiz
Quem então agora eu seria?
Ahh, tanto faz
E o que não foi não é
Eu sei que ainda vou voltar
Mas eu quem será?
Deixo tudo assim, não me acanho em ver
vaidade em mim
Eu digo o que condiz.
Eu gosto é do estrago.
Sei do escândalo e eles têm razão
Quando vem dizer que eu não sei medir
nem tempo e nem medo
E se eu for o primeiro?
A prever e poder desistir
do que for dar errado
Ahhh
olha, se não sou eu
quem mais vai decidir
o que é bom pra mim?
Dispenso a previsão
Ahhh, se o que eu sou
É também o que eu escolhi ser
aceito a condição
Vou levando assim
Que o acaso é amigo do meu coração
Quando falo comigo, quando eu sei ouvir.
FIneTuDE:.
Setembro 2, 2009
Ando fino, como se a minha pele fosse uma folha de um transparente, delicado e velho papel. Amarelado e seco, com marcas definidas pelo tempo, rabiscado com as cores de um lápis apontado a faca. Com amassados que se fazem notar em meus movimentos, marcas ruidosas, estridentes, como dobradiças de uma velha porta, feita com as sobras de madeira de embarcação. Aquelas acostumadas às lamúrias dos pássaros, a revolta do mar e a força dos ventos. Mas que depois do desgaste foi abandonada na areia da praia, sem serventia.
Ando fino, como meus finos cabelos, que insistem em se por na frente dos meus olhos, mascarando a realidade com seu amarelo de amanhecer, fino como meus lábios que não se cansam de provar do gosto da vida, que muda de esquina em esquina, e mesmo nas esquinas mais costumeiras o gosto nunca é igual.
Ando fino, fino, como meus suspiros, que se fazem assim para não pegar de supetão o coração, e não deixar que ele pense que insanidade voltou, junto com sua rebelde alegria, e o sorriso da noite. São finos meus suspiros, assim eles trazem a paz, e o coração em seu trono, sorri, por um reino de fácil zelo.
Ando fino, pois fina, é as solas dos meus pés, que já pisaram muito e às vezes se cansam da caminhada.
Ando fino, como a minha sombra fina e quase clara, que se esgueira entre meus gestos e de movimentos finos a minha sombra se alonga à medida que o tempo avança, ela não faz questão de olhar para trás, se alonga adiante dos meus pés e faz questão de chegar antes de mim, onde quer que eu vá.
Estou fino, de sorriso fino, pois ainda sei da alegria das coisas, mas as coisas que antes meu sorriso tocou, hoje são largas demais, e por isso meu fino sorriso, não mais se encanta.
Hoje sou fino, como o fino limiar ente a vida e o fim.


