Ando fino, como se a minha pele fosse uma folha de um transparente, delicado e velho papel. Amarelado e seco, com marcas definidas pelo tempo, rabiscado com as cores de um lápis apontado a faca. Com amassados que se fazem notar em meus movimentos, marcas ruidosas, estridentes, como dobradiças de uma velha porta, feita com as sobras de madeira de embarcação. Aquelas acostumadas às lamúrias dos pássaros, a revolta do mar e a força dos ventos. Mas que depois do desgaste foi abandonada na areia da praia, sem serventia.

Ando fino, como meus finos cabelos, que insistem em se por na frente dos meus olhos, mascarando a realidade com seu amarelo de amanhecer, fino como meus lábios que não se cansam de provar do gosto da vida, que muda de esquina em esquina, e mesmo nas esquinas mais costumeiras o gosto nunca é igual.

Ando fino, fino, como meus suspiros, que se fazem assim para não pegar de supetão o coração, e não deixar que ele pense que insanidade voltou, junto com sua rebelde alegria, e o sorriso da noite. São finos meus suspiros, assim eles trazem a paz, e o coração em seu trono, sorri, por um reino de fácil zelo.

Ando fino, pois fina, são as solas dos meus pés, que já pisaram muito e às vezes se cansam da caminhada.

Ando fino, como a minha sombra fina e quase clara, que se esgueira entre meus gestos e de movimentos finos a minha sombra se alonga à medida que o tempo avança, ela não faz questão de olhar para trás, se alonga adiante dos meus pés e faz questão de chegar antes de mim, onde quer que eu vá.

Estou fino, de sorriso fino, pois ainda sei da alegria das coisas, mas as coisas que antes meu sorriso tocou, hoje são largas demais, e por isso meu fino sorriso, não mais se encanta.

Hoje sou fino, como o fino limiar ente a vida e o fim.

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