Category: Vertigem


Hoje, isto aqui, se acaba! Porque tudo um dia tem que acabar.
Mesmo se for farsa, mesmo se for real ou sonho, não importa.
O que importa, é que tudo terá o seu fim.
Os finais são por vezes provocados, outros são casuais, são planejados, espontâneos e são todos sentidos.
São como quase tudo, metafísica.
E por falar em metafísica, o último texto é do Fernando Pessoa, se chama Tabacaria e foi escrito em 1928. Com certeza o maior texto já publicado aqui.
Aqueles que se permitirem ler até o seu final, perceberão a sua beleza.
Os que não, não lamentem, pois tudo tem seu fim, mesmo que o fim, aconteça no meio.
Agradecido,
Gualter Lemos:.

TABACARIA (15-1-1928 )
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num paço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou á janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou á porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.

In Pessoa, F. (1981): Obra Poética, Rio de Janeiro: Ed. Aguilar.

E um dia eu disse…

A mansidão dos meus gestos me reflete, me denuncia. Estas letras, estas frases, me entregam. Todas as outras letras e frases anteriores a estas, me sentenciam. E toda falta de gesto, letra e frase, me condenam.

Eu SEi…

Eu sei, eu sei…

Há tempos eu não escrevo coisa alguma.

É que, tem tanta coisa ao mesmo tempo.

Nem dá tempo de pedir socorro, e quando dá, não peço…

Enfim Serafim, o que será de mim… rs

MORtaDelA…

Quantas janelas há em um ônibus? Quantas de um lado e quantas do outro?

Quantas delas estariam abertas em uma noite de quase calor no Rio de Janeiro?

Eu estava sentado junto a uma destas janelas abertas, em um ônibus ontem à noite, lendo um livro. Entediado, cansado, pensativo, mas não surpreso por estar quase uma hora junto daquela janela, e a única coisa que me importava naquela janela, era o vento que vinha dela. Eu gosto de vento, eu gosto de fim de tarde com chuva, eu gosto da cor do céu na primavera e do quase frio no outono.

Mas não gostei quando fui atingido no peito por um pedaço de mortadela, é verdade, no meio do meu peito uma fatia grande, redonda e gordurosa, com uma mordida como marca.

Aquele cheiro característico veio depois do susto, e logo após o asco. Mais rápido do que a comoção geral das pessoas a minha volta eu a peguei com a ponta dos dedos e a devolvi pela janela.

O riso amarelo, misturado a frase, “mortadela no peito, que patético” era a cena ideal daquele início de noite, fim de um dia, cansativo, arrastado, preso, abafado e agoniado.

Eu nunca havia imaginado que ser atingido por um pedaço de comida, no meio da rua, entre estranhos, tinha um poder tão grande.

Impressionante, como a partir daquele momento eu me peguei repensando em todas as minhas atitudes para com a minha vida.

E a pergunta que eu fazia a mim mesmo, ecoava. Por que eu?

Eu não tive raiva, não xinguei, nem me envergonhei.

Sofri em um silêncio digno o impacto da vida me dando com uma mortadela no peito. Esperando que haja no mundo alguma civilização que creia que bons tempos sejam recebidos após ter um pedaço de mortadela atirado no peito de cada um.

Mas não posso negar, que um segundo depois que a vida voltou ao normal, eu já imaginava escrever sobre a mortadela no meu peito.

Triste a sina de quem escreve.

SobRE a AGOnia:.

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Perguntaram-me sobre a agonia.

Para mim a agonia é nó no peito, não é nó na garganta, nó na garganta a gente desata com grito, com briga e desabafo. Nó no peito não se desata, nem se enterrando embaixo dos cobertores, nem se esquecendo de por meias da mesma cor, não se desata com brinde, nem com caminhada na rua, que mesmo cheia de gente, automóveis e movimentos, lhe parecerá vazia.

Agonia para o tempo, corta a respiração ao meio, tira o gosto da boca e encanta os olhos, e os olhos encantados ou se perdem no horizonte ou só olham para dentro.

Agonia amansa os sentidos, pende o pescoço para baixo e um pouco para o lado, a agonia é sozinha, é independente, não necessita de outro sentimento para que ela prevaleça. Dá frio nas mãos e suor na testa. Seca a saliva e agita os pés. È a mistura entre o lento e o acelerado, e o compasso desordenado do coração, é a turves da visão.

Agonia, é espaço indefinido, é momento inacabado, é sonho descumprido e tem som abafado, é pedido que não se pede e nem é aceito, é solidão que não cede, já disse, é nó no peito.

Mas agonia se cura.

Agonia se cura com gargalhada de criança, com braço de amigo por cima do ombro, com mão de mãe no seu rosto, com olhar de cachorro querendo lhe entender. Agonia cura com banho de mar revolto, com vento de ventania no cabelo e  com sorriso próprio. Pois a agonia não suporta que o agoniado sorria para ela.

E neste tempo em que nada escrevo e reescrevo os outros, maiores, muito maiores do que eu, trago O Haver, porque desde sempre O Haver tem haver na minha vida. E como um dia deste disse ao meu amigo Paulo Roffe: “Se tivesse um vinho, eu brindava, porque no fim, ao fechar os olhos, teimo em crer que foi escrito em mim.” Com vocês O Haver, de Vinicius de Moraes.

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo:
— Perdoai! — eles não têm culpa de ter nascido… 

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe. 

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida. 

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia de simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius. 

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano, ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória…

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade. 

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje. 

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
E transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante 

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do Grande Medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do próprio reino. 

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.

Vinicius de Moraes

A outro Mestre mais uma homeagem e ao Flamengo o amor que não se acaba, se agiganta.

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Ser Flamengo é ser humano e ser inteiro e forte na capacidade de querer. É ter certezas, vontade, garra e disposição. É paixão com alegria, alma com fome de gol e vontade com definição.

É ser forte como o que é rubro e negro como o que é total. Forte e total, crescer em luta, peleja, ânimo, e decisão.

Ser Flamengo é deixar a tristeza para depois da batalha e nela entrar por inteiro, alma de herói, cabeça de gênio militar e coração incendiado de guerreiro. É pronunciar com emoção as palavras flama, gana, garra, sou mais eu, ardor, vou, vida, sangue, seiva, agora, encarar, no peito, fé, vontade. Insolação.

Ser Flamengo é morder com vigor o pão da melhor paixão; é respirar fundo e não temer; é ter coração em compasso de multidão.

Ser Flamengo é ousar, é contrariar norma, é enfrentar todas as formas de poder com arte, criatividade e malemolência. É saber o momento da contramão, de pular o muro, de driblar o otário e de ser forte por ficar do lado do mais fraco. É poder tanto quanto querer. É querer tanto como saber; é enfrentar trovões ou hinos de amor com o olhar firme da convicção.

Ser Flamengo é enganar o guarda, é roubar o beijo. É bailar sempre para distrair o poder e dobrar a injustiça. É ir em frente onde os outros param, é derrubar barreiras onde os prudentes medram, é jamais se arrepender, exceto do que não faz. É comungar a humildade com o rei interno de cada um.

É crer, é ser, é vibrar. É vencer. É correr para; jamais correr de. É seiva, é salva; é vastidão. É frente, é franco, é forte, é furacão. É flor que quebra o muro, mão que faz o trabalho, povo que faz país.”

Uma justa homenagem ao mestre Nelson Rodrigues e uma declaração de amor ao meu Flamengo.

“Corria o ano de 1911. Vejam vocês: — 1911! O bigode do kaiser estava, então, em plena vigência; Mata-Hari, com um seio só, ateava paixões e suicídios; e as mulheres, aqui e alhures, usavam umas ancas imensas e intransportáveis. Aliás, diga-se de passagem: — é impossível não ter uma funda nostalgia dos quadris anteriores à Primeira Grande Guerra. Uma menina de catorze anos para atravessar uma porta tinha que se pôr de perfil. Convenhamos: — grande época! grande época!

Pois bem. Foi em 1911, tempo dos cabelos compridos e dos espartilhos, das valsas em primeira audição e do busto unilateral de Mata-Hari, que nasceu o Flamengo. Em tempo retifico: — nasceu a seção terrestre do Flamengo. De fato, o clube de regatas já existia, já começava a tecer a sua camoniana tradição náutica. Em 1911, aconteceu uma briga no Fluminense. Discute daqui, dali, e é possível que tenha havido tapa, nome feio, o diabo. Conclusão: — cindiu-se o Fluminense e a dissidência, ainda esbravejante, ainda ululante, foi fundar, no Flamengo de regatas, o Flamengo de futebol.

Naquele tempo tudo era diferente. Por exemplo: — a torcida tinha uma ênfase, uma grandiloqüência de ópera. E acontecia esta coisa sublime: — quando havia um gol, as mulheres rolavam em ataques. Eis o que empobrece liricamente o futebol atual: — a inexistência do histerismo feminino. Difícil, muito difícil, achar-se uma torcedora histérica. Por sua vez, os homens torciam como espanhóis de anedota. E os jogadores? Ah, os jogadores! A bola tinha uma importância relativa ou nula. Quantas vezes o craque esquecia a pelota e saía em frente, ceifando, dizimando, assassinando canelas, rins, tórax e baços adversários? Hoje, o homem está muito desvirilizado e já não aceita a ferocidade dos velhos tempos. Mas raciocinemos: — em 1911, ninguém bebia um copo d’água sem paixão.

Passou-se. E o Flamengo joga, hoje, com a mesma alma de 1911. Admite, é claro, as convenções disciplinares que o futebol moderno exige. Mas o comportamento interior, a gana, a garra, o élan são perfeitamente inatuais. Essa fixação no tempo explica a tremenda força rubro-negra. Note-se: — não se trata de um fenômeno apenas do jogador. Mas do torcedor também. Aliás, time e torcida completam-se numa integração definitiva. O adepto de qualquer outro clube recebe um gol, uma derrota, com uma tristeza maior ou menor, que não afeta as raízes do ser. O torcedor rubro-negro, não. Se entra um gol adversário, ele se crispa, ele arqueja, ele vidra os olhos, ele agoniza, ele sangra como um césar apunhalado.

Também é de 1911, da mentalidade anterior à Primeira Grande Guerra, o amor às cores do clube. Para qualquer um, a camisa vale tanto quanto uma gravata. Não para o Flamengo. Para o Flamengo, a camisa é tudo. Já tem acontecido várias vezes o seguinte: — quando o time não dá nada, a camisa é içada, desfraldada, por invisíveis mãos. Adversários, juizes, bandeirinhas tremem então, intimidados, acovardados, batidos. Há de chegar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no arco. E, diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável.”

Nelson Rodrigues

Publicado originalmente na antiga Manchete Esportiva, no dia 26/11/1955.

Não ter as letras nas mãos, me faz seco, cego.
Não ter andamento nas linhas mal escritas e tortas, me faz sem rumo, sem norte.
Que necessidade é esta que não se sacia em um momento definido.
Onde fica o paraíso, para esta angustia?
Letras mudas que não se completam em frases surdas.
O que me faz pensar que basta fechar os olhos para que estas surjam uma a uma neste céu branco, como pára-quedistas rasgando o firmamento em cores vibrantes.
Que loucura é esta que me persegue, que me faz achar que rimas cicatrizariam feridas profundas, feridas criadas pela falta de tinta em minhas veias.
E este suor, áspero e gelado, que insiste em encharcar meu espírito,
Meu espírito que se revolta contra a mesmice e a pequinês dos atos contínuos e premeditados, que embrulha meu estomago e me corta ao meio o suspiro.
Letras, palavras e frases que insistem em me fazer caminhar pelo escuro da sua falta, caminhar sem a transparência do meu fino sorriso.
O mesmo sorriso que falsamente dou a piada repetida e que forçadamente foi contada em roda de amigos velhos que às vezes não enxergam que já não há mais nada a ser dito, e insistem em não crer no silêncio como a fuga esperada.
Sou isto e quase nada, sem as letras amarradas a mim, com fios de esperança feitos de nuvens brancas e areia fina.
Sou isto e quase nada, sem a rima fantasiada, sem frase bem acabada, tatuadas em minha pele, com a tinta amarela dos girassóis.
Sou isto e quase nada sem a poesia amaldiçoada, sem a crônica escarrada, sem o romance esquecido, sem o conto, onde conto coisas da vida.
Sou isto, e quase nada sou, sem o êxtase do fim…

OrAtóRIos nas PAreDeS:.

Mesmo que eu,
Mesmo que ele.
Com o ouro nas mãos,
Mesmo que Eles, e suas bossas, me viessem com novas,
Cantarolando em meus ouvidos.
Coisa do outro mundo…
Mesmo que a água faltasse,
E a minha boca deixasse seca,
Mesmo que o mar secasse,
Deixando tristes os meus versos,
E o sol avermellhasse, mais do que hoje,
Fazendo cegos, os meus olhos.
Ainda assim meus olhos veriam coisa mais bela.
Mesmo que aquela estrela rabiscada por mãos firmes, não tenha lugar na boemia,
Na noite escura,
Eu teria em minhas mãos…
As mesmas que derretem o gelo do ouro.
Eu teria a certeza,
Que assim seriamos capazes,
De perceber, que resta apenas,
Um brinde na noite escura,
Um momento, suprimido,
No tilintar dos copos,
Um suspiro, que faz sonhos,
Como aqueles com a vista da Lagoa na noite abafada,
Mas no emaranhar das vozes,
“Água de beber… Água de beber… Camará…”
Eu nunca fiz coisa tão certa.