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Eu SEi…

Eu sei, eu sei…

Há tempos eu não escrevo coisa alguma.

É que, tem tanta coisa ao mesmo tempo.

Nem dá tempo de pedir socorro, e quando dá, não peço…

Enfim Serafim, o que será de mim… rs

Nestes tempos em que nada escrevo, segue poesia musicada ou música poetisada do incrível Aldir Blanc! 

Que faz lembrar dos tempos onde uma noite só terminava quando a outra começava…

Eu gosto quando alvorece
porque parece que está anoitecendo
e gosto quando anoitece que só vendo
porque penso que alvorece
e então parece que eu pude
mais uma vez, outra noite,
reviver a juventude.
Todo boêmio é feliz
porque quanto mais triste
mais se ilude.
Esse é o segredo de quem,
como eu, vive na boemia:
colocar no mesmo barco
realidade e poesia.
Rindo da própria agonia,
vivendo em paz ou sem paz,
pra mim tanto faz
se é noite ou se é dia.

Aldir Blanc.

(SIC):.

Cursor negro piscando em cima de um quadro branco na tela do meu monitor no computador em cima da mesa. SIC, SIC, SIC, SIC…

Coração quase pausado, batidas lentas no meio do meu peito, som abafado, quase que quieto, descompensado, arrastado, tímido, imperfeito. SIC,SIC,SIC,SIC…

Mão procurando a outra, dente procurando unha, mãos esfregando palma com palma, meu dedo torcendo outro dedo até ouvir o som estampido. SIC,SIC,SIC,SIC…

Pálpebras que durante o meu sono são inquietas, semi abertas, semi cerradas. Agoniadas com o movimento dos olhos encantados nos sonhos da escrita, de um lado para o outro, atiçam as pálpebras em um movimento contínuo. SIC,SIC, SIC,SIC…

Suor meu que escorre da testa, do pescoço ao peito e no meio das mãos, perceptível, infalível, silencioso, fraco, pois se seca com brisa, resistente, pois volta à tona no minuto seguinte, tangível a cada gota. SIC,SIC,SIC,SIC…

Ideias, incessantes, incomparáveis, como correntes, elo que puxa elo, espaço para ter espaço, para que a ideia se propague como fumaça bem na frente dos meus olhos, envolventes, incansáveis, pertinentes, inacreditáveis. Nossas ideias que hão ecoar. SIC,SIC,SIC,SIC…

Um e MuITos:.

Nestes dias eu estive conversando com um grande amigo e entre nossos devaneios, eu disse uma frase e desde então esta frase não sai da minha cabeça, eu disse que somos um querendo ser muitos, enquanto muitos querem ser apenas um.

E ai está a o desafio, qual o momento certo para nos por a frente de tudo e de qualquer coisa, um único momento que seja possível, para quem sabe, realizar um sonho, descobrir algo novo, sentir de novo um sentimento antes esquecido, como seria possível definir este momento?

Por outro lado, em que passo deste caminho, conseguiremos descobrir que já somos muitos dentro de nós mesmos e que tentativas de sermos mais do que somos o tempo inteiro, nos desgasta.

Mas somos assim, definitivamente, somos assim e precisamos viver assim, com esta eterna dúvida, com a possibilidade de sermos acusados de ser egoístas, se neste caso nós resolvermos enxergar para dentro, o que há dentro e o que vem de dentro. Mas podemos também ser culpados por sermos levianos, por que somos muitos, somos mais do que o necessário, e às vezes somos tantos que confundimos a nós mesmos, pois somos os filhos, somos os irmãos, somos os amigos, somos pais, somos o cara da esquina, o cara de barba, o cara que escreve, aquele reúne, o outro que espalha, um que luta o outro que se encolhe, um que sempre se defende o outro que prefere amar, um que está cansado, o outro que já acha que está velho e que o tempo passou rápido demais, somos um que acorda cedo e pula da cama e é de sorriso fácil, somos mais um que chora.

Somos muitos e ainda bem, pois sendo muitos e até mesmo sendo um, somos únicos, sei que é um clichê, e a vida está repleta deles, mas o que é mais clichê, do que abraçar teu amigo entre um copo e outro, contar histórias velhas onde sabemos que a cada vez que ela é contada ela ganha um ar diferente, se não é clichê ganhar cafuné de vó no fim da tarde, me diga o que é então. Clichêzão é olhar nos olhos de alguém e dizer eu te amo, é o maior e melhor de todos.

Clichê é mais ou menos uma expressão idiomática que de tão utilizada, se torna previsível. Eu não quero dizer que somos previsíveis, talvez em alguns momentos a vida sim, seja previsível, mas as nossas respostas a vida, estas, nunca são previsíveis, sabem porque, por que somos um e também somos muitos. E a vida nunca sabe qual de nós vai responder as suas questões.

Somos um querendo ser muitos, somos muitos querendo ser um. Um que valha a pena, um que no fim, tenha um sorriso no canto da boca. E foi isso que fizemos este ano, fizemos valer a pena, de forma egoísta ou leviana, não importa. Fizemos valer à pena.

Nestes últimos meses andei lendo as histórias de um senhor uruguaio chamado Mario Benedetti, que em forma de diário me contava sobre um amor que de certa forma nem eu e nem ele sabemos como começou, e nem por que. Mas quem sabe?

Este amor que se pensava vir em um tempo errado, veio no certo, e de certo me entristeceu, mas amor é assim mesmo, tanto alegra quanto entristece. E este senhor me ensinou a entender como se escreve sobre uma mulher, mas sobre isso falo outro dia. E já nem eu nem ele sabemos como chegamos nas mãos um do outro, mas agradeço, como um aluno.

E triste está outro senhor Canadense chamado David Gilmor que anda preocupado com fato de ter apoiado seu filho a abandonar a escola, e em troca o filho teria de passar a assistir com ele três filmes por semana. Eu ainda não sei se isso vai ter o resultado que ele espera, eu sou lento em minhas leituras, eu as prefiro assim, mas o que importa é que o pai pensa que seu filho pode vir a ser um fracassado, mas um fracassado que sabe tudo de cinema. O que o Sr. Gilmor não sabe que se antes de conhecê-lo eu já gostava do cinema, hoje eu gosto mais. Falta bem pouco para o fim desta história que também é de amor (sempre ele), me mostre o poder de um pai na vida de um filho.

Logo depois terei pela frente as histórias de um inglês e um de irlandês, escolhidos ao acaso, pois para ler um me disseram que eu precisava abandonar a minha família e amigos; largar meu trabalho e meus compromissos; deixar meu jantar queimar no forno e me afundar na letra, pois a vida tem gosto de plástico ao lado das palavras de Simon Van Boot. Para ler o outro me foi dito que nenhuma descrição deste poderia fazer-lhe justiça, pois irá me oferecer uma perspectiva poderosa e humilde da nossa vida do jeito que ela é, e este se chama Gerad Donavan.  Um virá com contos outro com romance, um que fala sobre o amor (olha ele ai de novo) e o outro sobre as pessoas, sobre as conversas entre dois homens, sobre uma vila européia em plena guerra civil, sobre a neve, sobre conflitos, reações humanas e morte eminente. (será que tem amor?)

Para que escrevo isso?

Escrevo porque serão estes dois as minhas companhias enquanto tomo café pela manhã, no ônibus antes de dormir (na maioria das vezes eu durmo nos ônibus), em pé no metrô, são eles que farão peso na mochila que eu levo nas costas, vão se molhar com a chuva, se amassar com a rapidez da vida, são eles que irão guardar com carinho a foto dela, foto que me ajuda a achar o fio do pensamento, são estes dois senhores que irão palpitar o rumo destas letras, por enquanto…

MORtaDelA…

Quantas janelas há em um ônibus? Quantas de um lado e quantas do outro?

Quantas delas estariam abertas em uma noite de quase calor no Rio de Janeiro?

Eu estava sentado junto a uma destas janelas abertas, em um ônibus ontem à noite, lendo um livro. Entediado, cansado, pensativo, mas não surpreso por estar quase uma hora junto daquela janela, e a única coisa que me importava naquela janela, era o vento que vinha dela. Eu gosto de vento, eu gosto de fim de tarde com chuva, eu gosto da cor do céu na primavera e do quase frio no outono.

Mas não gostei quando fui atingido no peito por um pedaço de mortadela, é verdade, no meio do meu peito uma fatia grande, redonda e gordurosa, com uma mordida como marca.

Aquele cheiro característico veio depois do susto, e logo após o asco. Mais rápido do que a comoção geral das pessoas a minha volta eu a peguei com a ponta dos dedos e a devolvi pela janela.

O riso amarelo, misturado a frase, “mortadela no peito, que patético” era a cena ideal daquele início de noite, fim de um dia, cansativo, arrastado, preso, abafado e agoniado.

Eu nunca havia imaginado que ser atingido por um pedaço de comida, no meio da rua, entre estranhos, tinha um poder tão grande.

Impressionante, como a partir daquele momento eu me peguei repensando em todas as minhas atitudes para com a minha vida.

E a pergunta que eu fazia a mim mesmo, ecoava. Por que eu?

Eu não tive raiva, não xinguei, nem me envergonhei.

Sofri em um silêncio digno o impacto da vida me dando com uma mortadela no peito. Esperando que haja no mundo alguma civilização que creia que bons tempos sejam recebidos após ter um pedaço de mortadela atirado no peito de cada um.

Mas não posso negar, que um segundo depois que a vida voltou ao normal, eu já imaginava escrever sobre a mortadela no meu peito.

Triste a sina de quem escreve.

SobRE a AGOnia:.

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Perguntaram-me sobre a agonia.

Para mim a agonia é nó no peito, não é nó na garganta, nó na garganta a gente desata com grito, com briga e desabafo. Nó no peito não se desata, nem se enterrando embaixo dos cobertores, nem se esquecendo de por meias da mesma cor, não se desata com brinde, nem com caminhada na rua, que mesmo cheia de gente, automóveis e movimentos, lhe parecerá vazia.

Agonia para o tempo, corta a respiração ao meio, tira o gosto da boca e encanta os olhos, e os olhos encantados ou se perdem no horizonte ou só olham para dentro.

Agonia amansa os sentidos, pende o pescoço para baixo e um pouco para o lado, a agonia é sozinha, é independente, não necessita de outro sentimento para que ela prevaleça. Dá frio nas mãos e suor na testa. Seca a saliva e agita os pés. È a mistura entre o lento e o acelerado, e o compasso desordenado do coração, é a turves da visão.

Agonia, é espaço indefinido, é momento inacabado, é sonho descumprido e tem som abafado, é pedido que não se pede e nem é aceito, é solidão que não cede, já disse, é nó no peito.

Mas agonia se cura.

Agonia se cura com gargalhada de criança, com braço de amigo por cima do ombro, com mão de mãe no seu rosto, com olhar de cachorro querendo lhe entender. Agonia cura com banho de mar revolto, com vento de ventania no cabelo e  com sorriso próprio. Pois a agonia não suporta que o agoniado sorria para ela.

 
 
O Velho E O Moço
Los Hermanos
Composição: Rodrigo Amarante 

Deixo tudo assim
Não me importo em ver a idade em mim
Ouço o que convém
Eu gosto é do gasto 

Sei do incômodo e ela tem razão
Quando vem dizer, que eu preciso sim
De todo o cuidado 

E se eu fosse o primeiro a voltar
Pra mudar o que eu fiz
Quem então agora eu seria? 

Ahh, tanto faz
E o que não foi não é
Eu sei que ainda vou voltar
Mas eu quem será? 

Deixo tudo assim, não me acanho em ver
vaidade em mim
Eu digo o que condiz.
Eu gosto é do estrago. 

Sei do escândalo e eles têm razão
Quando vem dizer que eu não sei medir
nem tempo e nem medo 

E se eu for o primeiro?
A prever e poder desistir
do que for dar errado 

Ahhh
olha, se não sou eu
quem mais vai decidir
o que é bom pra mim?
Dispenso a previsão 

Ahhh, se o que eu sou
É também o que eu escolhi ser
aceito a condição 

Vou levando assim
Que o acaso é amigo do meu coração
Quando falo comigo, quando eu sei ouvir.

FIneTuDE:.

Ando fino, como se a minha pele fosse uma folha de um transparente, delicado e velho papel. Amarelado e seco, com marcas definidas pelo tempo, rabiscado com as cores de um lápis apontado a faca. Com amassados que se fazem notar em meus movimentos, marcas ruidosas, estridentes, como dobradiças de uma velha porta, feita com as sobras de madeira de embarcação. Aquelas acostumadas às lamúrias dos pássaros, a revolta do mar e a força dos ventos. Mas que depois do desgaste foi abandonada na areia da praia, sem serventia.

Ando fino, como meus finos cabelos, que insistem em se por na frente dos meus olhos, mascarando a realidade com seu amarelo de amanhecer, fino como meus lábios que não se cansam de provar do gosto da vida, que muda de esquina em esquina, e mesmo nas esquinas mais costumeiras o gosto nunca é igual.

Ando fino, fino, como meus suspiros, que se fazem assim para não pegar de supetão o coração, e não deixar que ele pense que insanidade voltou, junto com sua rebelde alegria, e o sorriso da noite. São finos meus suspiros, assim eles trazem a paz, e o coração em seu trono, sorri, por um reino de fácil zelo.

Ando fino, pois fina, são as solas dos meus pés, que já pisaram muito e às vezes se cansam da caminhada.

Ando fino, como a minha sombra fina e quase clara, que se esgueira entre meus gestos e de movimentos finos a minha sombra se alonga à medida que o tempo avança, ela não faz questão de olhar para trás, se alonga adiante dos meus pés e faz questão de chegar antes de mim, onde quer que eu vá.

Estou fino, de sorriso fino, pois ainda sei da alegria das coisas, mas as coisas que antes meu sorriso tocou, hoje são largas demais, e por isso meu fino sorriso, não mais se encanta.

Hoje sou fino, como o fino limiar ente a vida e o fim.

O FaTO:.

Fato, no dicionário está escrito assim:

fato1
[Do lat. factu.]
Substantivo masculino.
1.Coisa ou ação feita; sucesso, caso, acontecimento, feito.
2.Aquilo que realmente existe, que é real.
3.Filos. V. fenômeno (8).

Então vejamos se de fato os fatos que estão por vir não se tornaram fato por conta do espaço que existe entre o imaginário e o real.

Vamos aos fatos. Hoje fui almoçar sozinho e fui almoçar onde há muito tempo não ia, por isso caminhei bastante nesta sexta-feira chuvosa, friorenta e que ventava muito, já almocei pensando no café de depois, pois estava ao lado de um bom lugar para se tomar um bom café. Almoçar sozinho para mim já é uma tarefa não muito prazerosa, sempre deixa a minha mente Kafkiana demais, e em uma sexta com frio e chuva, mais ainda.

Uma senhora sentou-se ao meu lado quando eu já estava no fim, mas ela não permaneceu nem um minuto na mesa, levantou-se logo e eu nem liguei. Nem levantei meus olhos a isto. Depois a vi conversando animadamente com outra senhora em outra mesa. Logo agradeci em silêncio, pelas duas senhoras tagarelas não terem se sentado na minha mesa.

Sexta feira friorenta e chuvosa e duas senhoras tagarelas em um almoço solitário, eu prefiro não crer em tal acontecimento. Deus existe e eu sei disso e hoje ele está neste espaço entre o real e o imaginário.

Fim do almoço solitário e me ponho de pé na porta do café, já imagino o café quente, talvez um chocolate logo após e por fim, água muita água. Para diminuir o doce da boca.

Impossível, o café parecia que havia se tornado um pub cheio e barulhento mas no lugar das cervejas, havia café, também não havia uma mesa vazia se quer. Não importa lembrei-me de outro lugar.

Volto à rua, já sem chuva, mas com muito vento e um vira-lata agitado correndo entre as pernas das pessoas que passam por mim, acredite, eu fiz menção em assoviar, para o pobre cão. Imagine sexta feira, almoço sozinho, não consigo tomar um café e termino afagando um vira-lata úmido e fedorento que atendeu ao meu assovio. Mas isto também não aconteceu, Deus continua a existir neste pequeno espaço.

Já perto da minha segunda opção, lembrei-me de outra, a livraria, lá tomo o café e aproveito para ver os livros, ela fica em frente ao escritório, é e perfeito. Não tenho pressa, já na entrada comprovo que tanto a livraria quanto o café que há dentro dela não estão cheios, e isso é bom, há até um lugar para sentar-me no mezanino onde posso ver o andar de baixo, os livros, a rua e as pessoas. Café servido, e eu troco o chocolate de depois pelo chantilly de agora. Olho para a rua e vejo meu amigo passar pela calçada, já com seu casaco que ele havia esquecido comigo outra noite e que deixei nas costas da minha cadeira para que ele o pegasse, lá estão ele e seu casaco, andando e fumando na frente da livraria, ele para rapidamente em frente a uma das janelas e depois se vai. Almoçar sozinho como eu, talvez.

O café chegou ao fim, o pago com três moedas, desço as escadas, não sem antes perceber que em cima da minha cabeça há um teto de vidro e que há algo escrito que eu não consigo ler, mas que deve se referir ao lugar e ao tempo onde estes vidros foram feitos. Imagino que eles devem estar ali há muito tempo, suportando um peso enorme de um prédio inteiro em cima do café. Pensamentos Kafikanianos, quantas almas já se jogaram ao chão sob aquele teto de vidro.

Entre os livros reparo que uma repórter que está acompanhada de um rapaz que segura uma câmera e usa um daqueles coletes cheio de bolsos, que só os que pescam e portam câmeras usam, não consigo imaginar tantas coisas para tantos bolsos. Também não consigo imaginar porque eles sempre são da cor cáqui. A repórter entrevista uma moça que estava lendo um livro, sentada em uma enorme poltrona. A moça responde animadamente as questões impostas pela repórter. 

Paro em frente a uma estante de livros próximo da repórter e começo a ver algumas cadernetas de anotações que levam nomes de escritores famosos e que custam quase dois almoços solitários. Passo a imaginar que os tais escritores famosos e mortos nem deviam cogitar a hipótese de que um dia seus nomes ocupariam cadernetas de anotações e que elas custariam tão caro, para simples cadernetas.

Reparei que a repórter acabou a sua entrevista e que o câmera desligou o equipamento sentou-se em um banquinho mais perto da janela. Imediatamente largo as cadernetas e começo a andar pela livraria e sei quase que instintivamente que a repórter segue os meus passos discretamente, vou circulando o balcão central da livraria, torcendo para que ela não me alcance, mas não teve jeito, tive de parar em frente à outra estante, pois caso o contrário, voltaria à estante das cadernetas e ai sim seria patético.

Fato:

A repórter chega perto de mim, que falsamente folheio um livro que nem sei do que se trata, nem se quer me diz seu nome e já me explica:

– “Oi, estou fazendo uma reportagem sobre as livrarias, de como elas cresceram, agora já se pode comer, beber, apreciar cafés e vinhos e além de comprar livros, comprar também discos, filmes, presentes e outras coisas mais”

Eu imediatamente concluí: “- Cadernetas !!!”

– Como? A repórter agora confusa me pergunta.

Pateticamente continuo: “- Podemos comprar cadernetas, mas elas são muito caras.”

Para minha sorte ela não ligou para minha infeliz idéia das cadernetas e continuou o discurso que ela já havia aplicado e dado certo em outras pessoas. “Você pode falar comigo, sobre as livrarias?”

-“Prefiro não, respondi. Sou muito tímido”. 

-“Prefere não falar!”

-“Prefiro.”

Ela fez um sinal negativo para o cara colete de pescador e ele voltou a sentar-se no banquinho e eu voltei os olhos para o livro, mas ela não saiu da minha frente.

-“Você gosta das livrarias de hoje?”

Como assim, de hoje. Ela usava um par de óculos estreitos e sorria constantemente. Cabelos curtos, rosto fino, microfone para baixo e mão na cintura.

Eu não conheço as livrarias de ontem, mas logo imagino que elas não vendiam cadernetas tão caras. Onde será que antes se compravam as cadernetas de anotações?

-“Gosto…” Eu gosto mesmo de livrarias, com cafés e almoços, com filmes e vinhos, eu simplesmente gosto, se estiverem vazias.

-“Você acha que se pode paquerar alguém em uma livraria?”

Então pensei: “Você está me paquerando?”, e ai está o espaço. Pensei mas não falei e ai que Deus e seu enorme senso de humor resolveu morar nesta sexta feira chuvosa e friorenta.

“-Não.” Eu respondi.

Ela se virou, logo depois de agradecer, eu percebi que o livro que eu folheava era sobre cervejas, grata ironia. Então sai da livraria, não sem antes, lustrar os sapatos na máquina.