Eu disse a mim mesmo que um dia eu conseguisse escrever um livro, eu daria o nome de “Abril que não se acaba”.
Hoje é Abril.
E quanta coisa aconteceu neste tempo enorme.
Eu sei que errei muito neste tempo enorme.
Mas eu pude também acertar um pouco.
E neste tempo enorme, eu pensei em você,
Neste tempo enorme, perdi um padrinho,
Tive medo do câncer em uma avó,
E tive medo da idade da outra que avança incontestavelmente.
Vi minha irmã se formar.
Tentei me aproximar do meu pai,
Vi lágrimas e mais lágrimas da minha mãe,
Chorei também.
Transformei-me, e me transformei de novo,
Casei,
Protegi,
Cuidei,
Fiquei só,
Vi a dor alheia,
Vi a pele, vi o osso,
Senti-me pequeno,
Separei.
Quase vi morrer pensando que salvava, salvei pensando que matava.
Mergulhei na noite,
Abriram-me os braços,
Fecharam-me as caras,
Julgaram-me,
Condenaram-me,
Condenei-me também,
Entorpeci-me mil vezes.
Fracassei.
Tive o excesso, tive a escassez.
Chorei de novo,
Fracassei de novo,
A insônia virou companhia e o sono remédio para o tempo.
Li livros novos,
Li novamente livros antigos, só que eles ficaram diferentes.
Fiquei doente, mas depois fiquei bom.
Tomei inúmeros porres,
E vi mil sorrisos,
Por pouco não me afoguei no mar.
Trai. Fui traído,
Sub-julguei e fui sub-julgado.
Meus olhos ainda não pararam de coçar, Um deles foi operado, assim como meu pé direito. Perdi um pênalti com ele na final do campeonato, mas ri disto, pois a vida já é dura o bastante.
Tive dinheiro, hoje não tenho quase nenhum.
Estive sob a mira de uma arma, foram só por dez minutos, mas que pareceram dez horas.
Emocionei-me com coisas bobas e ainda me emociono com elas, e para isso não há remédio, eu espero.
Fiz novos amigos, perdi velhos amigos. Briguei com eles e eles brigaram comigo.
Mas não briguei com Deus.
Fiz promessas,
Mas não consegui cumpri-las.
Por um milhão de vezes pensei em largar o trabalho, assim como por um milhão de vezes estive aposto para comprar uma passagem de avião.
Fui covarde.
Mas no fundo também tive coragem.
Assumi e assumo todos meus erros e pago por cada um deles.
E quis sumir.
Senti saudades, por muitas vezes ainda sinto saudades.
Lembrei de coisas pequeninas, e esqueci-me de coisas importantes.
Fui xingado. xinguei o mundo,
E gritei no escuro,
Porque meu coração ainda dói demais.
Apareci novamente e me escondi do mundo.
Me assustei
Tive medo, ainda o tenho,
Perdi identidade.
Aprendi a tocar tamborim,
Tenho um bloco de carnaval e na hora da folia, fugi do carnaval.
Hoje, até posso ouvir musica eletrônica, sem esquecer do samba.
Mas não mudei de time, sou Flamengo até morrer. E o Pelé é melhor que o Maradona, mas eu ainda prefiro o Zico.
Conheci Modiglianni,
Gostei mais do Vinicius, do Chico e do Cartola,
Mas ainda me impressiona o Renato Russo. Íris do Goo Goo Dolls ainda me deixa perdido no tempo,
Nunca mais ouvi Nina Simone no café da manhã! O jazz nasceu para as mulheres ou elas foram criadas para o Jazz?
Aprendi coisas do céu e do inferno,
E sei onde fica cada um destes lugares.
Olhei para dentro,
Olhei para o lado,
E continuei olhando para traz.
Não tenho métrica,
Nem rima.
Estou velho e pesado.
Ainda tenho uma única tatuagem.
Nunca odiei ninguém.
E quanto ao amor,
Este brota, simplesmente brota entre as minhas palavras mal escritas.
E neste tempo imenso ainda tenho sonhos,
Sonho que um dia eu possa te olhar sem pressa,
E que eu possa caminhar ao teu lado em silêncio… 
Gualter Lemos:.