Tag Archive: Aos Meus


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Quando a loira entrou no bar, nós que já estávamos de saída, tivemos vontade de ficar.
O tal bar não estava acostumado a tal beleza,
E tal beleza não estava acostumada a  tal bar…
Bem vestida, salto alto,
Parou em frente a uma mesa, abriu os braços e sorriu.
O Russo, nosso garçom, levantou os olhos, largou no balcão uma garrafa de cerveja e o abridor e acelerou o passo em direção a moça.
E do nada um abraço surgiu…
O tempo parou, o bar se fez em silêncio, nem os titilares dos copos se ouvia…
A cena era:
A loira e o garçom abraçados  no meio do bar,
Nós continuávamos estáticos, olhos arregalados, respiração suspensa,
E a trilha sonora da cena? Bom a trilha sonora era uma exclamação:
 “ÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉGUAAAA RRRUUUUUUUSSSSSOOO !!! “ 

Neste outro post “Aos Meus”, como de costume com  atraso,  segue uma das muitas cenas que este cara hilário, não nos cansa de brindar. Além de cenas hilárias em uma das terças insanas Eduardo surge com este belo poema de W. H. Auden, e nos brinda, desta vez com poesia… 

Funeral Blues. 

Parem os relógios
Cortem o telefone
Impeçam o cão de latir
Silenciem os pianos e com um toque de tambor tragam o caixão
Venham os pranteadores
Voem em círculos os aviões escrevendo no céu a mensagem:“Ela está morta!”

Ponham laços nos pescoços brancos das pombas
Usem os policiais luvas pretas de algodão 

Ela era meu norte, meu sul, meu leste e oeste.
Minha semana de trabalho e meu domingo
Meu meio-dia, minha meia-noite.
Minha conversa, minha canção.

Pensei que o amor fosse eterno, enganei-me.
As estrelas são indesejadas agora.
Dispensem todas.

Embrulhem a lua e desmantelem o sol
Despejem o oceano e varram o bosque  

Pois nada mais agora pode me servir…

 

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Aos Meus… Pedro Jaccoud…

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E mais um post “Aos Meus”, segue, sei que atrasado, mais isto vai acontecer até a inspiração me for eterna e de mim saia pelos poros frazeados inteiros.
Foi muito difícil achar um texto ou uma poesia que lhe caiba.

A esperteza me falta.

A inspiração não supre.

Ficou pequena a palavra.

Dos Meus, tu és um dos grandes. E se o tempo passa que passe então por cima dos meus ombros, que ao lado dos teus, formem uma muralha e nos proteja das coisas da vida.
De ti que pude ver, lágrimas de menino e sorriso sincero, fico com o aperto de mão, forte como de costume, e implicâncias de irmão mais novo, que não cessa.
Segue um texto do Zuenir Ventura que conta uma história a dois meninos, que aconteceu com ele e com o Vinicius de Moraes, e se acontecesse comigo acho que o teu nome é que eu gritaria.

“ME AJUDA PEDRINHO…” 

“Distantes do grupo, nós dois estávamos sentados em bancos altos tomando uísque no balcão do bar, quando se deu o incidente. De costas para a cena, ouvi primeiro um estalo seco, quase metálico; depois, os gritos femininos: “sua p…, p… é você”. Antes de me virar, vi a cara de susto do poeta e seu apelo: “me ajuda, Zuenirzinho”. A sua capacidade de reduzir tudo a um diminutivo era tanta que até em meu nome, que não se presta a esse acréscimo carinhoso, ele conseguia botar um zinho. Virei-me rápido, saí correndo atrás dele, mas ao chegarmos à roda que então se formara, as duas damas já tinham sido devidamente apartadas e estavam contidas pela turma do deixa-disso. Soubemos então o que acontecera: num ímpeto de ciúme, a mulher do poeta agredira com um estridente tapa uma outra jovem brasileira que fora conosco ao cassino. Quando voltamos para os nossos banquinhos, devo ter olhado com suspeita para Vinicius, porque sua reação foi imediata: “não olha assim pra mim não, Zuenirzinho, dessa vez eu estou inocente!”.

Bendito vagabundo
Zuenir Ventura
No Mínimo . 02/12/2003

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E para inaugurar Aos Meus, segue o post para um novo amigo Rodrigo Mendes, que vive a declarar que vai embora para Pasárgada. Pode ser que  um dia, faremos as malas e partiremos numa noite de uma terça qualquer para boêmia de uma Pasárgada, beber um pouco e divagar sobras as coisas da vida.

Ai esta de Manuel Bandeira, Vou-me embora para Pasárgada.

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Texto extraído do livro “Bandeira a Vida Inteira“, Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90