Com o peito apertado, ele abre os olhos. Porém não há coragem para levantar-se da cama.
Sem saber como chegou até aquele ponto, sente que o tempo correu veloz demais e a certeza de não ter conseguido acompanha-lo veio ao passar a mão pelo o rosto e se impressionar com as marcas que o tempo desenhou, confuso pensa que as marcas não estavam em seu rosto ontem, será que a embriaguez não permitiu enxerga-las. A embriaguez o fez cego para muitas coisas, mas o fez enxergar tantas outras, e a compensação não cabe neste momento.
Também não enxerga o espaço entre o céu e o chão que tem de pisar, tudo parece mínimo, apertado.
As lágrimas estão represadas,
O coração descompassado,
A respiração silenciosa.
As mãos estão juntas, dedos entrelaçados tentando achar a segurança que o resto do corpo não lhe passa.
Saber que se faz necessário ficar de pé , não é o suficiente para mover suas pernas.
O suspiro não lhe trás forças para mover seu coração, pelo menos em seu quarto o tempo está parado. Ali ele é o senhor das horas, não há tempo determinado para se alimentar, nem para acordar, para as tarefas cotidianas não há um minuto se quer. O tempo não tem espaço naquela caixa vazia, talvez ali tudo seja vácuo, tudo esteja suspenso, o chão não se faz mais seguro, o ar não se faz revigorante, o céu não é azul, é creme, com marcas escuras, as paredes não se pode escalar e saltar para fora delas, são enormes, vão além da visão.
Ele entende que esta é a prisão mais cruel, e nem nos tempos da ditadura o aço das grades era tão frio, o exílio seria um paraíso agora.
Não resta dúvida que tudo saiu do controle, que a mesmice dos atos contínuos e encantadores, misturou-se à leviandade, e ao tentar fugir da insanidade dos dias e ao tentar a letra perfeita, simplesmente enlouqueceu…

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