Quantas janelas há em um ônibus? Quantas de um lado e quantas do outro?

Quantas delas estariam abertas em uma noite de quase calor no Rio de Janeiro?

Eu estava sentado junto a uma destas janelas abertas, em um ônibus ontem à noite, lendo um livro. Entediado, cansado, pensativo, mas não surpreso por estar quase uma hora junto daquela janela, e a única coisa que me importava naquela janela, era o vento que vinha dela. Eu gosto de vento, eu gosto de fim de tarde com chuva, eu gosto da cor do céu na primavera e do quase frio no outono.

Mas não gostei quando fui atingido no peito por um pedaço de mortadela, é verdade, no meio do meu peito uma fatia grande, redonda e gordurosa, com uma mordida como marca.

Aquele cheiro característico veio depois do susto, e logo após o asco. Mais rápido do que a comoção geral das pessoas a minha volta eu a peguei com a ponta dos dedos e a devolvi pela janela.

O riso amarelo, misturado a frase, “mortadela no peito, que patético” era a cena ideal daquele início de noite, fim de um dia, cansativo, arrastado, preso, abafado e agoniado.

Eu nunca havia imaginado que ser atingido por um pedaço de comida, no meio da rua, entre estranhos, tinha um poder tão grande.

Impressionante, como a partir daquele momento eu me peguei repensando em todas as minhas atitudes para com a minha vida.

E a pergunta que eu fazia a mim mesmo, ecoava. Por que eu?

Eu não tive raiva, não xinguei, nem me envergonhei.

Sofri em um silêncio digno o impacto da vida me dando com uma mortadela no peito. Esperando que haja no mundo alguma civilização que creia que bons tempos sejam recebidos após ter um pedaço de mortadela atirado no peito de cada um.

Mas não posso negar, que um segundo depois que a vida voltou ao normal, eu já imaginava escrever sobre a mortadela no meu peito.

Triste a sina de quem escreve.