Eu caminhava pelas ruas do centro da cidade em uma tarde de chuva, mãos nos bolsos e mil pensamentos me rodeavam. Para cada lado que eu olhava, vislumbrava pensamentos diferentes.
Seguiam à minha frente os meus sonhos, e a cada passo que eu dava, a um passo a mais estavam eles, sempre se mostrando inalcançáveis.
Enfim, eu podia vê-los muito bem, bastava eu levantar os olhos e deixar de olhar o reflexo dos prédios nas poças formadas pelas águas da chuva fina.
Os pensamentos que vinham à minha direita, sibilavam incessantemente, e eram sempre imediatos com as coisas práticas da vida.
Os aniversários dos amigos que eu me esqueci, as brigas de família que eu não resolvi, uma próxima viagem, as prestações do carro que ainda faltam a pagar. Estes pensamentos nunca se completavam, um passava por cima do outro e eu fazia um esforço enorme para poder controlá-los.
À minha esquerda uma brisa leve, me faz respirar profundamente e acabei percebendo que deste lado vinham pensamentos carregados de sentimentos e lembranças. Consegui lembrar e sentir o perfume de uma mulher e isso me fechou os olhos, senti a saudade do meu avô, pensei nos olhares de algumas pessoas importantes, pensei em areias tão brancas como nuvens, em montanhas verdes, e águas claras que já tocaram meus pés. Lembrei dos sorrisos dos meus amigos.
Notei que eu poderia ficar ali na chuva fina, parado, juntos destes pensamentos o dia inteiro.
Então parei.
Foi quando me dei conta, que estava à frente de uma livraria com a sua enorme porta de vidro claro, e janelas tão grandes e com vidros tão claros quanto os da porta. Dentro eu podia ver os móveis de madeira escura, haviam poesias escritas com tinta preta nas paredes brancas, no chão um piso com mosaicos.
A chuva então apertou, fazendo com que eu olhasse para o céu e visse as gotas que caiam e explodiam em meu rosto.
Um som vinha de dentro da livraria.
Ora um violão, ora um violão e uma gaita.
E ao tentar entrar precisei segurar a porta por um tempo, para que meus pensamentos também pudessem entrar.
Os pensamentos que seguiam à frente, apressados, já estavam dentro em um frenesi, uns com os livros, outros circulavam o rapaz que cantava e tocava um violão e uma gaita.
Os que seguiam à direita continuavam na porta, se esbarrando e disputando o espaço que restava entre eu e o portal.
Diferente os da esquerda que em uma calma aparente, como a de um espelho d’água de um lago que refletem as nuvens no céu e nos faz imaginar dois céus um acima e outro abaixo dos nossos olhos, passaram um a um e se dividiram entre as poesias nas paredes e a música do rapaz.
Antes de entrar olhei para trás, e longe, do outro lado da rua, alguns pensamentos me olhavam fixamente sem nenhuma expressão a não ser uma melancolia. Por um segundo cogitei ir até eles e saber quem eram, vi que eram muitos e estavam longe, me olhando, todos eles, fixos  como a falta do ar, imóveis, como se o tempo do outro lado da rua tivesse passado e mais nada se movia. Imaginei que mesmo se eu viesse a caminhar por entre estes pensamentos somente seus olhares iriam se mover, para me acompanhar.
Mas o som da gaita me fez olhar novamente para a livraria, e já dentro pude sentir o cheiro das folhas novas dos livros, do couro das poltronas, do que café que era coado em uma velha máquina em cima de uma mesa.
No fundo da livraria, diante de uma prateleira lotada de livros, que ia quase até o teto, estava um rapaz, sentado em um banco alto, usava um jeans e uma camisa branca, cabelos despenteados, violão nos braços, gaita presa em seu pescoço, ele tocava as últimas notas de uma canção, que finalizou em um suspiro, então ele levantou os olhos, sorriu e me perguntou:
– “Por quantas estradas um homem deve percorrer, para poder ser chamado de homem…”
Neste momento todos meus pensamentos me olharam, juntos, e um silêncio que podia ser sentido na pele, perdurou.
Então os pensamentos que estavam sempre à minha frente, chegaram perto o bastante e eu pude ouvir seus sussurros e perceber que alguns estavam ali há tanto tempo que estavam tão velhos quanto eu.
O tumulto sibilado dos pensamentos da direita cessou imediatamente, e eles se entreolharam como se notassem que eles nem eram tão imediatos e talvez fossem até imprecisos e assim perceberam que tudo tem seu tempo.
Na esquerda, os pensamentos sorriram levemente, senti a companhia deles e o suspiro de cada um, eles me admiravam, e assim quase me perdi novamente por entre eles.
Ainda olhei para trás e pela porta de vidro vi que aqueles que estavam longe, para mais longe foram.
Busquei o ar olhando para o teto alto da livraria e entendi o tempo que estava parado à espera da resposta.
Quando voltei os olhos para o rapaz, ele já com o violão nas costas e a gaita no bolso, passei as mãos pelo meu rosto, sorri de volta, balancei a cabeça, e senti o vazio que o silêncio trouxe para o meu lado.
E sem conseguir a resposta, o rapaz veio até ao meu lado, sorriu novamente, tocou no meu ombro e me olhou por um segundo, antes de me deixar só na livraria.

Dedicado ao meu amigo Rolin